Ainda me lembro bem da primeira vez que ouvi falar sobre low backgroud steel, o nome que cientistas dão para todo aço produzido no mundo antes de 1945, hoje basicamente só encontrado em navios naufragados. E aparentemente existe um mercado que paga caro por esse material.
O que acontece é que após todos os testes nucleares e a detonação das duas bombas atômicas no fatídico ano de 1945, todo o ar da atmosfera do planeta ficou ligeiramente contaminado por radiação e como o aço é "soprado" com grande quantidade de ar durante sua fundição, ele também contém traços de radiação, ainda que mínimos. Para o uso no dia a dia, nenhuma preocupação, mas para alguns usos específicos, como nos medidores Geiger ultra senssíveis, isso é inaceitável.
Alguns eventos, de fato, mudam a humanidade para sempre.
Em 30 de novembro de 2022 foi oficialmente lançado o Chat-GPT, que não foi o primeiro LLM (Large Language Model) mas sem dúvidas foi o modelo que popularizou a ideia de IA.
De lá para cá, muita coisa aconteceu. Boas e ruins. Até o momento, aparentemente a balança parece pesar para o lado bom. É dito que vários avanços na ciência só foram possíveis graças a grande capacidade de gestão matricial de dados que os LLM possuem. Do ponto de vista humano, entretanto, talvez as coisas tenham piorado um pouco.
A internet aparentemente foi inundada por um tipo específico de conteúdo chamado de AI-Slop. São fotos, vídeos e textos feitos com aquele estilo que só a IA tem. Muitas vezes com coisas abstratas e bizarras que somadas ao popular formato de "vídeos curtos" que dominou a internet nos últimos anos, parece ser grande responsável pelo — ainda teórico — brain rot populacional.
Em uma experiência observacional pessoal, tive a oportunidade de conversar com uma amiga há alguns meses onde ela dizia o quão imbecilizador eram os vídeos, populares à época, chamados de italian brainrot memes. Menos de um ano mais tarde, a vi assistindo a um novo fenômeno chamado novela de frutas em um aplicativo de vídeos curtos e interessada verdadeiramente por aquilo.
Isso obriga-me a encarar uma pergunta óbvia: é esse o nosso futuro?
A comunicação humada sempre foi algo fascinante. A habilidade de articular alguns símbolos inventados de maneira a trazer significados praticamente universais e intergeracionais à eles é inegavelmente fascinante. É o que possibilitou o desenvolvimento humano. Agora essa mesma dádiva encontra-se ameaçada.
Large Language Models. Grandes modelos de… Linguagem. Em uma simplificação pueril, o que as LLM são na verdade é um avançadíssimo preditor de texto. Cálculos incompreensíveis a partir de um input geram determinado output com assustadora precisão.
Mas toda essa precisão depende na verdade de uma coisa: do conhecimento humano. As ditas IAs são, sim, excepcionais em cruzar dados e fornecer respostas que humanos levariam muito tempo para conseguir. Entretanto, curiosamente, quando exemplos banais, relativamente inéditos e cruelmente óbvios, são utilizados elas não parecem sair-se tão bem. A exemplo, cito o exemplo — hoje já corrigido — de "ir ao lava-jato à pé".
Agora vejam que curioso: antes de 2022 a imensa maioria do conhecimento — em mídias escritas, áudios e vídeos — era produzido exclusivamente por pessoas. Com nossos erros e vícios mas também com nossa pureza e espontaneidade, com o que para nós é natural. Depois do surgimento e popularização dos LLM, uma parte imensurável e certamente significativa de tudo que existe hoje disponível foi integralmente ou parcialmente produzido por IA.
O que significa que num futuro próximo — se não já agora — as LLM receberão parte significativa de seu treinamento em textos gerados pela própria IA, entrando num ciclo vicioso de amplificação de trejeitos artificiais e provável emburrecimento ou superficialização de textos e mídias. O problema não é novo e não é sem solução, mas existe.
Não posso ser hipócrita de bradar a defesa de um mundo sem IA. Se assim fosse, provavelmente esse site e várias outras criações minhas não existiriam. Mas ao menos meu uso converte-se em utilizar os LLM como instrumentos de criação de layouts, estruturas, planilhas, tabelas dentre outras coisas. Mas o conteúdo, aquilo que preenche essas estruturas, o conteúdo é sempre meu.
Faz sentido ou já sou demasiadamente antiquado?
Assim como o aço produzido antes de 1945 adquiriu seu valor com o tempo, me pergunto se os textos e mídias de antes de 2022 terão o mesmo destino. Ou será que na verdade ninguém se importante com a estética rígida e previsível das IAs?
Isso não quer dizer, claro, que apenas mídias elaboradas antes de 2022 devem ser valorizadas. Ora, nós humanos continuamos existindo e provavelmente — espero eu — continuaremos a existir por um bom tempo.
A ideia desse projeto é justamente tentar resgatar e — julguem-me radical, se quiserem — preservar essa importante feição da humanidade: a linguagem não "GPTizada". Erros de português, estrutura gramatical confusa, nada de emojis, nada organizado em listas enumeradas. É pedir demais?
Se isso faz sentido pra você, bem-vindo e sinta-se livre pra compartilhar seus pensamentos sobre.
Rodrigo Prado